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Criança com dor de ouvido: otite ou outra causa?

Por Dra. Jéssica Dantas | CRM 185.972 | RQE 1239901 | Pediatra e Gastropediatra

Resumo rápido:

  • A causa mais comum de dor de ouvido na criança é a otite média aguda, quase sempre depois de um resfriado — mas nem toda dor de ouvido é otite.
  • Outras causas frequentes: otite externa (“do nadador”), dor referida da garganta, dentição, disfunção da ATM e até cera ou um objeto no canal.
  • Só o exame do ouvido com otoscópio confirma o diagnóstico — em casa, dá para levantar a suspeita, mas não fechar.
  • Nem toda otite precisa de antibiótico: muitas são virais e melhoram sozinhas. O foco inicial é controlar a dor e a febre.
  • Sinais de alerta: dor há mais de 48h sem melhora, febre alta, saída de pus ou sangue pelo ouvido, ou bebê muito prostrado — procure avaliação.

Papais e mamães, quando a criança aperta a mãozinha na orelha e chora de madrugada, a causa mais provável é a otite média aguda, em geral logo depois de um resfriado. Mas é importante saber de uma coisa desde já: dor de ouvido nem sempre é otite. A dor pode vir de uma otite externa, da garganta, de um dente nascendo, da articulação da mandíbula ou até de cera acumulada — e o que resolve cada uma é diferente.

No consultório, essa é uma das queixas que mais aparece, e a aflição é sempre a mesma: “como eu sei se é no ouvido mesmo?”. A verdade honesta é que o diagnóstico de certeza depende de olhar dentro do ouvido com um aparelho (o otoscópio) — em casa você consegue suspeitar, não fechar. Este guia vai te ajudar a reconhecer os sinais, entender as causas possíveis e saber a hora certa de buscar o pediatra de confiança.

Por que a dor de ouvido é tão comum na infância?

A dor de ouvido é comum na criança por uma questão de anatomia. A tuba auditiva (ou trompa de Eustáquio) — o canal que liga o ouvido médio ao nariz e à garganta — é, na criança pequena, mais curta e mais horizontal do que no adulto. Isso facilita que vírus e bactérias do nariz e da garganta cheguem ao ouvido médio e que secreções fiquem represadas ali.

Some a isso a imaturidade do sistema imunológico e o contato intenso com outras crianças (creche, escola), e você tem o cenário perfeito para infecções respiratórias de repetição — e, atrás delas, as otites. Não à toa, a otite média aguda é responsável por cerca de um terço das idas ao médico em crianças menores de 5 anos (Sociedade Portuguesa de Pediatria). Estima-se que a maioria das crianças tenha pelo menos um episódio antes dos 3 anos.

Ou seja: se o seu filho já teve (ou vai ter) dor de ouvido, ele está em ótima companhia estatística. É uma das passagens mais clássicas da primeira infância.

Otite média aguda: a causa mais frequente

A otite média aguda (OMA) é a inflamação do ouvido médio — o espaço logo atrás do tímpano — e é a causa mais comum de dor de ouvido na infância. Ela costuma aparecer 5 a 7 dias depois de um resfriado ou gripe: a secreção do nariz sobe pela tuba auditiva, o líquido se acumula atrás do tímpano, a pressão aumenta e vem a dor, muitas vezes súbita e forte.

Os sinais típicos da otite média aguda incluem dor de ouvido (otalgia), febre, irritabilidade, dificuldade para dormir e, às vezes, queda na audição. Em alguns casos, a pressão é tanta que o tímpano se rompe e sai uma secreção (pus) pelo ouvido — e, curiosamente, a dor costuma aliviar nesse momento, porque a pressão foi liberada. Pode assustar ver a secreção, mas em geral é um sinal de alívio da pressão, não de piora.

Um ponto que tranquiliza muita família: a maioria das otites médias é de origem viral e tende a se resolver sozinha em poucos dias (SBP). Por isso, antibiótico não é regra automática — falo disso mais à frente.

Nem toda dor de ouvido é otite: as outras causas

Esta é a parte que os pais mais precisam ouvir: dor de ouvido não é sinônimo de otite média. Existem várias outras causas, e diferenciá-las muda o tratamento. As principais são:

  • Otite externa (“otite do nadador”): inflamação da pele do canal auditivo, comum no verão, após banho de praia/piscina ou uso de cotonete. A dor piora ao tocar ou puxar a orelha, costuma ser de um lado só e em geral não vem com febre (SBP).
  • Dor referida da garganta: amigdalites e faringites podem doer no ouvido sem que haja qualquer infecção lá dentro — os nervos são compartilhados. Criança com dor de garganta que aponta o ouvido é cena clássica.
  • Dentição: o nascimento de dentes, principalmente os molares, pode gerar desconforto que a criança “leva” para a região da orelha.
  • Disfunção da articulação temporomandibular (ATM): a articulação da mandíbula fica bem perto do ouvido, e problemas ali podem se manifestar como dor de ouvido.
  • Cera ou corpo estranho: acúmulo de cerúmen ou um objeto/inseto no canal também causa dor — e merece atenção especial em crianças pequenas, que costumam colocar coisinhas no ouvido.
  • Variação de pressão (barotrauma): viagens de avião ou mergulho podem doer pela mudança brusca de pressão.

Repare como cada uma dessas pede uma conduta diferente. É por isso que “dor de ouvido” não é um diagnóstico — é um sintoma que precisa de contexto.

 

Otite média x otite externa: como diferenciar

A otite média e a otite externa são confundidas com frequência, mas têm pistas que ajudam a distinguir. A diferença central: a otite média é atrás do tímpano (ouvido médio) e ligada a resfriados; a otite externa é na pele do canal (ouvido externo) e ligada à água/manipulação.

Pista Otite média aguda Otite externa (“do nadador”)
Onde fica Ouvido médio (atrás do tímpano) Canal auditivo (pele, antes do tímpano)
Gatilho típico Resfriado/gripe recente Água no ouvido, cotonete, verão
Dor ao puxar a orelha Geralmente não muda Piora bastante ao tocar/puxar
Febre Comum Em geral ausente
Secreção Pus se o tímpano rompe Secreção branco-amarelada no canal, com coceira inicial
Estação Outono/inverno Verão

Mesmo com essas pistas, só a otoscopia confirma. Em casa, esses sinais servem para você desconfiar e descrever bem ao pediatra — não para fechar o diagnóstico ou escolher tratamento por conta própria.

Como saber se o bebê que não fala está com dor de ouvido?

O bebê que ainda não fala demonstra dor de ouvido pelo comportamento, não com palavras. Os sinais mais comuns são: levar a mão à orelha ou puxar a orelha repetidamente, choro súbito e inconsolável (muitas vezes à noite), irritabilidade, dificuldade para dormir e recusa para mamar (sugar aumenta a pressão e dói).

Outros sinais que merecem atenção: febre, sair secreção pelo ouvido, o bebê parecer não responder a sons como antes, ou demonstrar desequilíbrio e movimentos desajeitados. No consultório, oriento os pais a observarem se o choro tem relação com a posição deitada — a dor da otite costuma piorar quando o bebê se deita, porque a pressão no ouvido aumenta.

Importante: puxar a orelha isoladamente nem sempre é dor de ouvido — bebês também exploram o corpo e mexem na orelha por descoberta ou sono. O que liga o alerta é o conjunto: orelha + choro diferente + febre ou resfriado recente.

Tratamento: como aliviar a dor enquanto busca avaliação

O primeiro objetivo no tratamento da dor de ouvido é controlar a dor e a febre, e isso pode começar em casa enquanto você organiza a consulta. As medidas com respaldo são:

  • Analgésicos/antitérmicos como paracetamol ou ibuprofeno, eficazes para a dor aguda — sempre na dose correta para o peso e a idade, e idealmente alinhados com o pediatra.
  • Compressa morna (nunca quente) sobre a orelha afetada, por 10 a 15 minutos: o calor ameniza o desconforto. Envolva a bolsa em um pano para proteger a pele.
  • Manter a cabeça mais elevada ao deitar ajuda a aliviar a pressão e o desconforto.

Agora, o que não fazer, e isso é inegociável: não pingue nada no ouvido por conta própria — nem óleo, nem gotas, nem “receitas caseiras” — e não introduza cotonete ou qualquer objeto no canal. Se houver perfuração do tímpano, certas gotas são perigosas; e cotonete empurra cera e machuca. A regra de ouro: nada entra no canal auditivo sem orientação médica.

Toda otite precisa de antibiótico?

Não. Nem toda otite precisa de antibiótico — esse é um dos pontos em que mais combato o uso desnecessário. Boa parte das otites médias é viral e se resolve sozinha; nesses casos, o tratamento é só o controle da dor e da febre, e o antibiótico não acrescenta nada (a não ser efeitos colaterais e risco de resistência bacteriana).

O antibiótico fica reservado para situações selecionadas, decididas pelo médico após examinar o ouvido — por exemplo: bebês pequenos (sobretudo abaixo de 6 meses), febre alta, dor intensa e persistente, otite nos dois ouvidos em crianças pequenas, saída de pus, ou ausência de melhora após 48 a 72 horas de tratamento sintomático.

Por isso eu sempre digo: comida e cuidado primeiro, remédio com indicação. O antibiótico tem hora e lugar — usá-lo “para garantir” em toda dor de ouvido é justamente o que cria bactéria resistente. Quem define é o exame, não o palpite.

Prevenção: dá para reduzir a frequência das otites?

Dá, sim, para reduzir a frequência das otites com algumas medidas simples e bem embasadas:

  • Vacinação em dia, especialmente as vacinas pneumocócica e da gripe, que previnem infecções que abrem caminho para a otite.
  • Evitar a exposição à fumaça de cigarro: o tabagismo passivo irrita as vias respiratórias e a tuba auditiva, aumentando o risco.
  • Amamentar: o leite materno confere proteção imunológica nos primeiros meses.
  • Não alimentar o bebê deitado: dar mamadeira ou peito com o bebê na horizontal favorece o refluxo de líquido para a tuba auditiva.
  • Lavagens nasais com soro fisiológico durante resfriados ajudam a manter o nariz desobstruído, melhorando a ventilação do ouvido.

Nenhuma medida zera o risco — otite faz parte da infância —, mas o conjunto reduz a recorrência, principalmente naquelas crianças que parecem “colecionar” episódios.

Perguntas frequentes sobre dor de ouvido em criança

Toda dor de ouvido em criança é otite? Não. A otite média aguda é a causa mais comum, mas a dor também pode vir de otite externa, dor referida da garganta, dentição, problema na articulação da mandíbula (ATM), cera ou objeto no canal, e variação de pressão. Só o exame do ouvido confirma a causa.

Dor de ouvido sem febre pode ser otite? Pode. A otite externa em geral não vem com febre, e algumas otites médias também cursam sem febre. A ausência de febre não descarta otite — por isso o diagnóstico depende da avaliação médica.

Como sei se meu bebê que não fala está com dor de ouvido? Observe o comportamento: levar ou puxar a mão à orelha, choro súbito e inconsolável (sobretudo à noite), irritabilidade, dificuldade para dormir e recusa para mamar. Febre e resfriado recente reforçam a suspeita.

Qual a diferença entre otite média e otite externa? A otite média é a inflamação do ouvido médio (atrás do tímpano), ligada a resfriados, e costuma vir com febre. A otite externa é a inflamação da pele do canal auditivo, ligada à água e ao uso de cotonete, piora ao puxar a orelha e em geral não tem febre.

Pode ser dor de dente nascendo e não o ouvido? Sim. A dentição, principalmente dos molares, pode gerar desconforto que a criança sente perto da orelha. Dor de garganta também “irradia” para o ouvido. Por isso a avaliação ajuda a localizar a origem real da dor.

Toda otite precisa de antibiótico? Não. Muitas otites são virais e se resolvem sozinhas, com tratamento apenas para dor e febre. O antibiótico é indicado em situações específicas, definidas pelo médico, como bebês pequenos, febre alta, dor intensa persistente ou falta de melhora em 48 a 72 horas.

O que posso fazer em casa para aliviar a dor? Analgésicos/antitérmicos na dose adequada (paracetamol ou ibuprofeno), compressa morna sobre a orelha por 10 a 15 minutos e manter a cabeça elevada ao deitar. Nunca pingue líquidos nem introduza objetos no ouvido por conta própria.

Posso pingar óleo ou gotas no ouvido da criança? Não, sem orientação médica. Se houver perfuração do tímpano, certas substâncias são perigosas, e cotonetes empurram cera e machucam o canal. Nada deve entrar no canal auditivo sem avaliação.

Quanto tempo dura uma otite? A otite média aguda costuma melhorar em 5 a 7 dias, e a dor tende a aliviar nas primeiras 24 a 48 horas com o controle adequado. A otite serosa (com líquido sem infecção) pode durar semanas. Se a dor persistir além de 48 horas sem melhora, procure avaliação.

Criança com otite pode ir à escola ou nadar? A otite em si não é contagiosa, mas a infecção respiratória que a antecede pode ser. Em otite externa ativa, deve-se evitar a água até a inflamação passar. O retorno às atividades deve ser orientado pelo pediatra conforme o quadro.

Quando buscar avaliação com o pediatra

Procure o pediatra ou otorrinolaringologista de confiança quando a criança apresentar:

  • Dor que persiste por mais de 48 horas sem melhora, mesmo com analgésico.
  • Febre alta (acima de 38 °C) junto da dor de ouvido, ou febre que não cede.
  • Saída de secreção amarelada, esverdeada, com pus ou com sangue pelo ouvido.
  • Dor muito intensa que não alivia com a medicação habitual.
  • Bebê muito prostrado, que recusa alimentação ou líquidos, ou com sinais de desidratação.
  • Inchaço, vermelhidão ou dor atrás da orelha, ou a orelha “empurrada” para fora — sinal de alerta para complicação.
  • Sintomas neurológicos (vertigem intensa, alteração da consciência) — busca imediata.
  • Histórico de otites de repetição ou suspeita de perda de audição, que merecem investigação mais detalhada.

E não se esqueça: o exame do ouvido com otoscópio é o que fecha o diagnóstico e direciona o tratamento certo — inclusive para decidir se precisa ou não de antibiótico. Em vez de tentar adivinhar pela internet (ou pela vó de plantão), o caminho mais seguro é o olhar de quem acompanha o seu filho. Toda criança merece um pediatra para chamar de seu.

Espero que este guia tenha te ajudado a separar o que é otite do que pode ser outra coisa — e, principalmente, a respirar um pouco mais fundo na próxima madrugada de mãozinha na orelha. Grande abraço.

Sobre a autora: Dra. Jéssica Dantas é pediatra e gastropediatra, preceptora da UNIFESP/EPM, com atuação no Albert Einstein, Santa Catarina e Beneficência Portuguesa. Atende em Vila Mariana, São Paulo. Ver perfil completo

Referências:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Otite externa ou otite do nadador — Pediatria para Famílias, 2025.
  • Sociedade Portuguesa de Pediatria (SPP). Otites na criança — Criança e Família.
  • American Academy of Pediatrics (AAP). The Diagnosis and Management of Acute Otitis Media.
  • Lieberthal AS et al. Clinical Practice Guideline: Acute Otitis Media. Pediatrics, 2013.
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