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Cólica do recém-nascido: por que acontece e o que ajuda

Por Dra. Jéssica Dantas | CRM 185.972 | RQE 1239901 | Pediatra e Gastropediatra

Resumo rápido:

  • A cólica do recém-nascido é comum, benigna e autolimitada: começa por volta da 2ª–3ª semana, tem pico no 2º mês e some sozinha lá pelo 3º ou 4º mês.
  • A causa exata não é totalmente conhecida — está ligada à imaturidade do sistema digestivo e do sistema nervoso do bebê, não a erro dos pais.
  • O que ajuda de verdade: colo, contato pele a pele, embalar, ambiente calmo, banho morno e paciência. Cólica não tem cura medicamentosa comprovada.
  • O que NÃO tem evidência: chás, troca de fórmula por conta própria e dieta restritiva da mãe (exceto em alergia confirmada). A SBP é clara: não use chás.
  • Probiótico: apenas uma cepa (Lactobacillus reuteri DSM 17938) tem benefício em bebês amamentados — e só com indicação do pediatra.

Papais e mamães, a cólica do recém-nascido acontece porque o sistema digestivo e o sistema nervoso do bebê ainda estão amadurecendo — é o corpinho dele se adaptando à vida fora do útero. Ela é extremamente comum, benigna e passa sozinha: costuma começar por volta da segunda ou terceira semana de vida, tem o auge no segundo mês e desaparece entre o terceiro e o quarto mês. E aqui vai o mais importante: a cólica não é culpa sua.

Eu sei que poucas coisas desmontam uma mãe como o choro inconsolável de fim de tarde, com a barriguinha dura e as perninhas encolhidas, sem que nada pareça resolver. No consultório, escuto muito “será que meu leite é fraco?” ou “será que comi algo errado?” — e quase sempre a resposta é não. Este guia vai te explicar por que a cólica acontece, o que de fato ajuda e, com a mesma honestidade, o que não funciona (mesmo sendo muito repetido por aí).

O que é a cólica do recém-nascido?

A cólica do recém-nascido (ou cólica do lactente) é um quadro de choro intenso e inconsolável em um bebê saudável e bem nutrido, sem nenhuma doença por trás. É um dos chamados distúrbios funcionais do início da vida — ou seja, há sintoma, mas não há lesão ou doença.

Há mais de 50 anos, o pesquisador Wessel descreveu a cólica pela famosa “regra dos 3”: choro por mais de 3 horas por dia, em mais de 3 dias por semana, por mais de 3 semanas seguidas, em um bebê que come e cresce bem. Essa definição continua sendo a referência usada pela Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP).

Um ponto que tranquiliza: a cólica é uma condição autolimitada — tem começo, meio e fim — e, de modo geral, não está relacionada a doença nem a cuidado inadequado dos pais (SBP). Saber disso já tira um peso enorme das costas da família.

Por que a cólica acontece? As causas

A causa exata da cólica do recém-nascido ainda não é totalmente conhecida — e é honesto dizer isso, porque há muita informação inventada por aí. O que a ciência aponta é que a cólica resulta de uma combinação de fatores ligados à imaturidade do bebê, e não de uma única causa.

Os principais fatores envolvidos são:

  • Imaturidade do sistema digestivo: o intestino do recém-nascido ainda está aprendendo a digerir o leite e a lidar com os gases, e a microbiota (flora intestinal) ainda está se formando.
  • Imaturidade do sistema nervoso: o bebê ainda não regula bem os estímulos do ambiente. No fim do dia, depois de horas de luz, som e movimento, ele “transborda” — por isso a cólica clássica é vespertina/noturna.
  • Sensibilidade individual: alguns bebês simplesmente sentem e reagem mais ao desconforto e aos estímulos do que outros.

Repare no que não está nessa lista como causa comprovada: leite materno “fraco”, nervosismo da mãe como origem, ou um alimento específico que ela comeu. A cólica é, na maior parte das vezes, o próprio processo de adaptação do bebê ao mundo — a chamada exterogestação. É fase, não é falha.

Quando começa e quando passa?

A cólica do recém-nascido começa por volta da segunda ou terceira semana de vida, atinge o pico por volta do segundo mês e tende a desaparecer entre o terceiro e o quarto mês. Esse padrão é tão característico que, quando uma mãe me descreve essa “linha do tempo”, já me ajuda a confirmar que estamos diante de cólica e não de outra coisa.

A cólica costuma se concentrar em um horário: o fim da tarde e o início da noite. O bebê que passou o dia tranquilo “desanda” quando o sol se põe. Isso assusta os pais (“ele estava tão bem!”), mas é exatamente o esperado — é o sistema nervoso imaturo processando o acúmulo de estímulos do dia.

A melhor notícia deste artigo é justamente o prazo de validade: a cólica vai passar. Por mais infinitas que pareçam aquelas semanas, esse é um capítulo curto. Saber que existe um fim ajuda a atravessar as madrugadas mais difíceis.

Cólica ou outra coisa? Como diferenciar

Nem todo choro do recém-nascido é cólica — e essa distinção importa. O choro da cólica tem características próprias: é intenso, agudo e inconsolável, costuma vir no fim do dia, com o bebê encolhendo as perninhas, fechando os punhos, a face avermelhada e a barriga distendida. Muitas vezes ele melhora um pouco depois de soltar um gás ou evacuar.

Antes de concluir que é cólica, vale checar o básico: o bebê está com fome? A fralda está suja? Está com calor, frio ou sono? Precisa de colo? A cólica costuma ser o diagnóstico de quem já descartou essas causas mais simples.

E aqui entra um alerta importante: alguns sinais NÃO são de cólica e pedem avaliação médica. Febre, vômitos em jato, sangue nas fezes, recusa alimentar persistente, lábios ou pele arroxeados durante o choro, ou bebê que não ganha peso não são típicos de cólica e podem indicar outra condição. Nesses casos, o caminho não é “esperar passar” — é procurar o pediatra.

 

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O que ajuda de verdade (medidas com respaldo)

O que ajuda na cólica do recém-nascido são, principalmente, medidas de acolhimento e regulação — não remédios. O objetivo é confortar o bebê e ajudá-lo a se organizar enquanto o sistema dele amadurece. As estratégias com melhor respaldo são:

  • Colo e contato pele a pele: pegar o bebê no colo, com a barriguinha dele em contato com a sua, é uma das medidas mais recomendadas pela SBP. O calor e o batimento cardíaco da mãe acalmam.
  • Embalar e movimento suave: balançar com delicadeza, caminhar com o bebê, usar um sling/canguru. O movimento lembra o útero.
  • Ambiente calmo: diminuir luzes, sons e estímulos, principalmente no fim do dia. Menos é mais para um sistema nervoso imaturo.
  • Banho morno: relaxa a musculatura e diminui a tensão; tomar o banho junto com o bebê potencializa o efeito calmante.
  • Massagem na barriga e “bicicletinha”: movimentos circulares suaves no abdômen e mover as perninhas como se pedalasse ajudam a mobilizar os gases.
  • Posição de bruços sobre o antebraço: apoiar o bebê de barriga para baixo sobre o seu braço, com leve compressão na barriguinha, costuma confortar.
  • Mamadas tranquilas e boa pega: evitar que o bebê chegue faminto demais e cuidar da pega reduz a ingestão de ar durante a mamada.

E uma medida que quase ninguém menciona, mas que eu faço questão de incluir: cuidar de quem cuida. Bebê com cólica e pais exaustos formam um ciclo vicioso de tensão. Reveze, peça ajuda, respire. Você não precisa “resolver” a cólica — precisa atravessá-la com o bebê, e isso já é suficiente.

O que NÃO funciona (mesmo sendo muito repetido)

Esta seção é a mais importante do artigo, porque desfaz mitos que custam dinheiro, culpa e, às vezes, a própria amamentação. Vamos ser diretos sobre o que não tem comprovação para tratar a cólica do recém-nascido:

  • Chás (de erva-doce, camomila, funcho etc.): a SBP é explícita — não utilizar chás para tratar a cólica. Além de não terem eficácia comprovada, chás podem deslocar o leite materno (que deveria ser exclusivo até os 6 meses) e oferecer riscos ao recém-nascido.
  • Trocar a fórmula por conta própria: mudar de marca de leite sem orientação não trata cólica e pode confundir o quadro. A SBP recomenda não trocar fórmula sem o pediatra.
  • Dieta restritiva da mãe que amamenta: aqui combato uma crença muito enraizada. Não há comprovação de que cortar leite, feijão, brócolis, café ou “alimentos que dão gás” da dieta materna alivie a cólica do bebê — exceto no caso específico de alergia à proteína do leite de vaca (APLV) confirmada. Restringir a dieta da mãe sem necessidade a deixa malnutrida e culpada, sem ajudar o bebê.
  • Medicamentos “anticólica” de farmácia: não existe medicação com eficácia comprovada para curar a cólica. Nunca dê remédio ao bebê sem indicação do pediatra.
  • Interromper a amamentação: isso nunca deve ser feito por causa de cólica. A amamentação exclusiva deve ser mantida.

Eu defendo a mãe dessas exigências culturais injustas. A cólica não é um teste de quão “certo” você está fazendo as coisas. Cortar comida, viver no sufoco da dieta e ainda se culpar não vai abreviar a cólica — só vai te esgotar.

E os probióticos? O que a evidência diz

Os probióticos são a única exceção parcial à regra de que “nada cura cólica” — mas com ressalvas importantes. A cepa Lactobacillus reuteri DSM 17938 é a que tem melhor evidência: estudos mostram que ela pode reduzir o tempo de choro, principalmente em bebês amamentados (em bebês que usam fórmula, a evidência é menos consistente).

Três ressalvas que faço sempre no consultório. Primeira: o benefício existe, mas é modesto — não espere um botão de “desligar” a cólica. Segunda: probiótico não é medicamento e não previne a cólica; é, no máximo, um auxílio para aliviar. Terceira, e inegociável: só use com indicação do pediatra. A SBP orienta consultar o pediatra justamente para evitar o uso de probióticos sem comprovação de eficácia — há muitos produtos no mercado com cepas que não servem para isso.

Ou seja: probiótico pode entrar na conversa, mas é o pediatra quem indica qual, quando e se vale a pena no caso do seu bebê.

Perguntas frequentes sobre cólica do recém-nascido

Por que o recém-nascido tem cólica? Porque o sistema digestivo e o sistema nervoso do bebê ainda estão amadurecendo. A causa exata não é totalmente conhecida, mas envolve imaturidade intestinal, formação da flora, dificuldade de lidar com gases e imaturidade na regulação de estímulos. Não é culpa dos pais.

Com quantas semanas começa a cólica e quando passa? A cólica costuma começar por volta da segunda ou terceira semana de vida, tem pico no segundo mês e desaparece sozinha entre o terceiro e o quarto mês. É uma fase autolimitada.

O que é a “regra dos 3” da cólica? É a definição clássica: choro por mais de 3 horas por dia, em mais de 3 dias por semana, por mais de 3 semanas, em um bebê saudável e bem nutrido. É a referência usada pela Sociedade Brasileira de Pediatria.

Como sei se é cólica e não outra coisa? O choro da cólica é intenso, agudo, inconsolável, costuma vir no fim do dia, com perninhas encolhidas e barriga distendida, e melhora um pouco após soltar gás ou evacuar. Febre, vômitos em jato, sangue nas fezes ou recusa alimentar não são cólica e exigem avaliação médica.

A dieta da mãe causa cólica no bebê? Não há comprovação de que restringir alimentos da dieta da mãe alivie a cólica, exceto no caso de alergia à proteína do leite de vaca confirmada. Cortar alimentos por conta própria deixa a mãe malnutrida sem beneficiar o bebê.

Posso dar chá para o bebê com cólica? Não. A Sociedade Brasileira de Pediatria orienta não usar chás. Eles não têm eficácia comprovada, podem deslocar o leite materno e oferecer riscos ao recém-nascido.

Probiótico ajuda na cólica? A cepa Lactobacillus reuteri DSM 17938 tem evidência de reduzir o choro, principalmente em bebês amamentados, mas o benefício é modesto. Probiótico não é medicamento e deve ser usado apenas com indicação do pediatra.

O que faço em casa para aliviar a cólica? Colo e contato pele a pele, embalar com movimento suave, ambiente calmo com poucos estímulos, banho morno, massagem na barriga, “bicicletinha” com as perninhas e mamadas tranquilas com boa pega. Cuidar do descanso dos pais também conta.

Cólica e gases são a mesma coisa? Não exatamente. Os gases podem contribuir para o desconforto, mas a cólica é um quadro mais amplo, ligado à imaturidade digestiva e nervosa do bebê. Por isso ela não se resolve apenas “tirando o gás”.

Existe remédio que cura a cólica? Não existe medicação com eficácia comprovada para curar a cólica. O tratamento é baseado em medidas de conforto. Qualquer medicamento só deve ser usado com indicação do pediatra.

Quando buscar avaliação com o pediatra

Procure o pediatra de confiança quando o choro vier acompanhado de sinais que não são típicos de cólica:

  • Febre em recém-nascido (sempre exige avaliação).
  • Vômitos em jato ou vômitos frequentes.
  • Sangue nas fezes ou fezes muito alteradas.
  • Recusa alimentar persistente ou bebê que não ganha peso.
  • Lábios ou pele arroxeados durante o choro.
  • Choro que muda de padrão ou que parece de dor contínua, sem o ritmo habitual da cólica.
  • Exaustão dos pais a ponto de comprometer o cuidado — isso também é motivo legítimo para pedir ajuda.

E mesmo quando é “só cólica”, vale conversar com o pediatra: ele confirma que está tudo bem, descarta o que precisa ser descartado (como APLV, em casos selecionados) e orienta o que faz sentido para o seu bebê — em vez de você testar cada palpite de plantão. Toda criança merece um pediatra para chamar de seu.

Espero que este guia tenha tirado um pouco do peso dessas semanas dos seus ombros. A cólica é cansativa, mas é passageira — e atravessá-la com colo, calma e paciência já é fazer o melhor pelo seu bebê. Grande abraço.

Sobre a autora: Dra. Jéssica Dantas é pediatra e gastropediatra, preceptora da UNIFESP/EPM, com atuação no Albert Einstein, Santa Catarina e Beneficência Portuguesa. Atende em Vila Mariana, São Paulo. Ver perfil completo

Referências:

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Cólica do lactente — Pediatria para Famílias, 2025.
  • Wessel MA et al. Paroxysmal fussing in infancy, sometimes called “colic”. Pediatrics, 1954.
  • Critérios de Roma IV — Distúrbios gastrointestinais funcionais em neonatos e lactentes.
  • Sung V et al. Lactobacillus reuteri DSM 17938 for infant colic. Pediatrics (meta-análise).
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