Por Dra. Jéssica Dantas | CRM-SP 185972 | Pediatra e Gastropediatra
Publicado em 12 de maio de 2026 · Revisado em 12 de maio de 2026
Resumo rápido:
- Amamentação exclusiva até os 6 meses é a recomendação da SBP, OMS e AAP.
- O colostro — esse primeiro leite amarelo e espesso — é o alimento mais completo que existe para o recém-nascido.
- A pega correta é o fundamento de tudo: resolve a maioria das dores e problemas de produção.
- No 1º mês, o bebê mama de 8 a 12 vezes por dia — isso é completamente normal.
- Dificuldades são comuns e têm solução: não desista sem buscar apoio profissional.
O primeiro mês de amamentação é o mais desafiador — e também o mais decisivo. É quando o leite se estabelece, quando você e o bebê aprendem juntos uma habilidade completamente nova, e quando a maioria das mães encontra as primeiras dificuldades.
A boa notícia é que quase todos os problemas do primeiro mês têm solução. Fissura, dificuldade de pega, percepção de baixa produção de leite materno, choro depois de mamar — cada um desses tem causa identificável e manejo específico. Neste guia, vou te levar por cada etapa desse primeiro mês para que você chegue ao segundo mais confiante e com a amamentação estabelecida.
O leite materno do recém-nascido: colostro, leite de transição e leite maduro
O leite materno não é o mesmo ao longo das semanas. Ele muda de composição para acompanhar exatamente o que o seu bebê precisa em cada fase.
Colostro (dias 1 a 5): é o primeiro leite — amarelado, espesso, em pequena quantidade. Muitas mães se preocupam porque a quantidade parece pouca, mas o estômago do recém-nascido tem capacidade de apenas 5 a 7 ml nos primeiros dias. O colostro é produzido na medida certa. É rico em anticorpos IgA, proteínas e fatores de crescimento que protegem o intestino do bebê contra infecções — por isso é chamado de “primeira vacina do bebê” (OMS, 2023).
Leite de transição (dias 5 a 15): mais claro, mais volumoso. O volume aumenta progressivamente para acompanhar o crescimento rápido do bebê. É nessa fase que acontece a apojadura — aquela sensação de seios mais cheios e pesados quando o leite “desce”.
Leite maduro (a partir do 15º dia): estabiliza a composição com equilíbrio ideal de proteínas, gorduras, lactose, vitaminas e minerais. Muda durante a mamada — o leite do início (mais aguado) sacia a sede; o leite do final (mais gorduroso) sacia a fome.
Na prática clínica, o que ouço com mais frequência nos primeiros dias é: “meu leite é fraco, parece água.” Não é. A cor e a textura do leite não indicam sua qualidade — o leite de transição é mesmo mais claro, e isso é exatamente o que precisa ser.
Os primeiros dias no hospital: o que esperar
Amamentar na primeira hora de vida — essa recomendação existe por uma razão muito concreta: o reflexo de sucção do bebê está no pico nas primeiras horas após o parto. Quanto antes você colocar o bebê no peito, mais fácil é o início.
O que é normal nos primeiros dias:
- Bebê dorme muito e parece não querer mamar — normal. Acorde para mamar a cada 2 a 3 horas se ele não pedir.
- Seios ainda macios e sem sensação de “leite descendo” — o colostro está lá mesmo sem a apojadura.
- Bebê parece insatisfeito após mamar — verifique a pega antes de concluir que não tem leite suficiente.
- Perda de peso de até 10% do peso de nascimento nos primeiros 3 a 5 dias — fisiológica, esperada.
O que pede atenção:
- Perda de peso acima de 10% ou que não reverte após o 5º dia
- Bebê que não volta ao peso de nascimento até o 14º dia
- Menos de 6 fraldas molhadas por dia após o 5º dia de vida
Se você ainda está no hospital, peça para a enfermeira, consultora de amamentação ou pediatra acompanhar a primeira mamada. Uma orientação presencial nas primeiras horas vale mais do que mil vídeos.
Como fazer a pega correta: o fundamento de tudo
A pega correta na amamentação é o ponto de partida para resolver a grande maioria dos problemas — dor, fissura, leite que parece insuficiente, bebê inquieto no peito. Tudo passa por isso.
Uma pega correta tem estas características:
- A boca do bebê está bem aberta (como um bochecho exagerado)
- O queixo toca o seio e o nariz do bebê fica livre para respirar
- Os lábios estão virados para fora
- O bebê abocanha toda a parte inferior da aréola — não só o mamilo
- Você não sente dor após os primeiros segundos de sucção
Dá uma olhada nesse vídeo aqui que vai te ajudar muito:
Amamentação: como fazer a pega, posições corretas e dicas essenciais
Sinais de pega incorreta:
- Dor persistente durante toda a mamada
- Som de “clique” enquanto o bebê suga
- Bochechas encovadas durante a sucção (bebê sugando o ar)
- Mamilo saindo achatado ou deformado após a mamada
- Bebê que larga o peito com frequência
Quando a mãe me descreve dor forte do início ao fim da mamada, minha primeira pergunta é sempre: “como está saindo o mamilo quando ele larga?” Se sair achatado, a pega precisa ser corrigida. Simples assim.
Como corrigir: retire gentilmente o bebê do peito colocando o dedo na comissura da boca (para quebrar o vácuo), reposicione e tente novamente. Nas primeiras semanas, pode ser necessário tentar várias vezes por mamada — isso é completamente normal.
Posições de amamentação para o primeiro mês
Não existe posição certa ou errada. Existe a que funciona para você e para o seu bebê naquele momento. Dito isso, algumas posições facilitam a pega correta, especialmente no começo.
Posição tradicional: bebê deitado no antebraço da mãe, barriga com barriga. Boa para bebês que já têm algum controle de cabeça — geralmente a partir da 2ª semana.
Posição de bola de futebol americano: bebê sob o braço da mãe, com o corpo passando ao lado do quadril. Excelente para mães que tiveram cesariana (sem pressão na barriga), para bebês com dificuldade de pega e para amamentar gêmeos.
Posição deitada de lado: mãe e bebê deitados de frente um para o outro. Muito útil durante a madrugada e no pós-operatório. Facilita o descanso da mãe.
Posição reclinada ou laid-back: mãe reclinada, bebê deitado de bruços sobre o corpo dela. Ótima para lactantes com fluxo alto de leite e bebês que sofrem com refluxo.
Para todas as posições, o princípio é o mesmo: orelha, ombro e quadril do bebê alinhados (sem torcicolo), barriga do bebê voltada para o corpo da mãe, e cabeça livre para inclinar levemente para trás e abrir bem a boca.
Frequência e duração das mamadas no primeiro mês
Isso é o que mais surpreende as mães de primeira viagem: no primeiro mês, o bebê mama muito.
O que é normal:
- 8 a 12 mamadas por dia (isso é a cada 1h30 a 3 horas)
- Mamadas que duram de 10 a 40 minutos
- Bebês que “grudam” no peito por horas — especialmente à noite, nas fases de pico de crescimento
- Dias em que parece que o bebê não larga o peito — isso estimula a produção e é temporário
Sobre o horário fixo: a recomendação é amamentação em livre demanda — quando o bebê der sinais de fome, você oferece o peito. Não precisa esperar um intervalo mínimo. O relógio não é o instrumento certo para avaliar se está na hora de mamar.
Sinais de fome do bebê (antes do choro, que é sinal tardio): movimentos de busca com a boca, mãos indo à boca, agitação, cabeça girando de um lado para o outro.
Sobre mamar nos dois seios: ofereça o primeiro seio até que o bebê solte sozinho ou fique claramente menos ativo. Aí ofereça o segundo. Na próxima mamada, comece pelo segundo. Isso garante que o bebê receba o leite do final — mais gorduroso e calórico — dos dois lados.
Como saber se o bebê está mamando o suficiente
Essa é uma das perguntas que mais recebo no consultório e pelo WhatsApp — e faz todo sentido, porque o peito não tem marcação de mililitros.
Os indicadores mais confiáveis:
Fraldas: após o 5º dia de vida, um bebê bem alimentado produz pelo menos 6 fraldas molhadas e até 8 evacuações por dia. Nas primeiras semanas, bebês amamentados podem evacuar após cada mamada — isso é normal, não é diarreia.
Peso: o bebê deve recuperar o peso de nascimento até o 14º dia e, depois disso, ganhar em média 150 a 200g por semana no primeiro mês (SBP, 2024). A curva de peso é o melhor termômetro — daí a importância das consultas de puericultura nas primeiras semanas.
Comportamento: bebê que mama, dorme, acorda ativo e volta a dar sinais de fome está bem alimentado. Bebê constantemente inconsolável, letárgico ou com muito pouco sono pode precisar de avaliação.
Mamas: a sensação de esvaziamento após a mamada (seio mais mole) é um bom sinal de que o bebê sugou efetivamente.
Apojadura: quando o leite “desce”
A apojadura acontece entre o 2º e o 5º dia, geralmente. Os seios ficam mais cheios, firmes, quentes e às vezes bastante doloridos. Pode vir acompanhada de febre baixa (até 37,8°C) por 24 horas — isso é normal e não indica infecção.
O que ajudar na apojadura:
- Amamente com frequência — esvaziamento regular é o melhor alívio
- Antes da mamada, aplique calor por 2 a 3 minutos para facilitar o fluxo
- Após a mamada, aplique frio (gelo envolto em pano) para aliviar o inchaço
- Se o seio estiver tão firme que o bebê não consegue pegar, retire um pouco de leite materno manualmente antes de oferecer — só o suficiente para amolecer a aréola
O que não fazer: esvaziar completamente os seios fora das mamadas. Isso sinaliza para o corpo produzir ainda mais leite, piorando o ingurgitamento.
Problemas comuns no primeiro mês: como identificar e o que fazer
Fissura no mamilo: rachaduras ou feridas no mamilo são, na maioria das vezes, consequência da pega incorreta. A correção da pega resolve o problema — o mamilo se recupera em poucos dias. Aplique leite materno no mamilo após cada mamada (tem ação cicatrizante e antibacteriana) e deixe secar ao ar. Lanolina purificada pode ajudar se a fissura for profunda.
Ingurgitamento: seio excessivamente cheio, duro e doloroso. Diferente da apojadura normal, o ingurgitamento pode persistir se as mamadas forem insuficientes ou se a pega estiver errada. Tratamento: mamadas frequentes, esvaziamento eficaz, compressas de calor antes e frio depois.
Mastite: inflamação da mama — seio vermelho, quente, endurecido, com dor localizada e febre acima de 38,5°C. Diferente do ingurgitamento, a mastite não melhora só com esvaziamento e geralmente precisa de avaliação médica e, em muitos casos, antibiótico. Continue amamentando — o leite de uma mama com mastite não faz mal ao bebê.
Leite que “emperra” (bloqueio do ducto): um nódulo doloroso na mama, sem febre. Geralmente resolve com massagem circular no local antes e durante a mamada, calor úmido e posicionamento do bebê com o queixo apontando para o nódulo.
Se você tiver febre ou sentir que o seio está ficando cada vez mais vermelho e dolorido, procure avaliação. Não espera resolver sozinho.