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Caderneta da Criança: como usar e o que registrar em cada fase

Caderneta da criança aberta sobre a mesa com as mãos de uma mãe registrando informações do bebê.

Resumo rápido:

  • A caderneta da criança é o documento oficial do Ministério da Saúde que acompanha a saúde, o crescimento e o desenvolvimento do seu filho do nascimento até os 9 anos.
  • Ela tem duas partes: uma para a família (orientações) e outra para os profissionais de saúde (registros de peso, altura, vacinas e marcos).
  • Regra de ouro: leve a caderneta em toda consulta e toda vacinação — sem ela, o acompanhamento fica cego.
  • O que os pais registram: intercorrências, dúvidas para a próxima consulta e observações do dia a dia. O que o profissional registra: medidas, curvas, vacinas e marcos do desenvolvimento.
  • Desde 2025 existe a versão digital, no app Meu SUS Digital, que convive com a caderneta de papel e envia lembretes de vacina.

A caderneta da criança é o documento de saúde mais importante que você vai carregar nos primeiros anos do seu filho — e, na correria do puerpério, também um dos mais subutilizados. Você pode receber na maternidade ou encontrar o arquivo para impressão em caderno personalizado facilmente na internet. Ela serve para registrar, num só lugar, tudo o que importa sobre o crescimento e o desenvolvimento do bebê: peso, altura, perímetro da cabeça, vacinas aplicadas, marcos alcançados e sinais de alerta. Quem preenche a parte técnica é o profissional de saúde; quem tem o dever de levá-la a cada atendimento é você.

No consultório, eu costumo dizer às mães que a caderneta é a “memória de saúde” da criança. Nenhum de nós — nem eu, nem você — consegue lembrar de cabeça em que percentil o bebê estava há três meses ou qual foi a data exata da última dose da vacina. A caderneta lembra. Neste guia, vou te mostrar, na prática, o que registrar, como ler as informações que mais assustam os pais (como as curvas de crescimento) e por que esse caderninho é, de fato, um passaporte da cidadania do seu filho.

O que é a caderneta da criança e para que serve

A caderneta da criança é o documento oficial do Ministério da Saúde que reúne, em um só lugar, todo o histórico de saúde, crescimento e desenvolvimento da criança do nascimento até os 9 anos de idade. Existe uma versão para meninos e outra para meninas, com pequenas diferenças nas curvas de crescimento.

Ela serve para três coisas ao mesmo tempo. Primeiro, é um registro clínico: peso, altura, perímetro cefálico, vacinas e marcos ficam anotados ali, consulta após consulta. Segundo, é um guia de orientação para a família, com informações sobre amamentação, alimentação, prevenção de acidentes e sinais de alerta. Terceiro, é um instrumento de direitos — por isso “passaporte da cidadania” —, garantindo que a criança seja acompanhada pelos serviços de saúde, educação e assistência social.

Na prática, penso na caderneta como o prontuário que anda junto com o seu filho. O prontuário da minha clínica fica comigo; o do posto fica lá. A caderneta é a única fonte que atravessa todos esses lugares — a maternidade, o posto, a minha sala, o pronto-socorro numa viagem. É por isso que ela só cumpre o papel dela se estiver sempre com você.

Como é dividida a caderneta: as duas partes

A caderneta da criança é dividida em duas partes, e entender essa divisão evita a confusão mais comum: achar que “é o médico que preenche tudo”. Não é.

A primeira parte é sua, da família. Ela traz orientações e espaços para você acompanhar — direitos da criança e dos pais, registro civil de nascimento, amamentação e alimentação saudável, calendário de vacinação, prevenção de acidentes e violências, e os sinais de perigo que merecem procurar ajuda. É a parte que você lê, consulta e usa para tirar dúvidas.

A segunda parte é dos profissionais de saúde. É ali que o pediatra, o enfermeiro ou o dentista registram os dados objetivos: os gráficos de crescimento (as curvas), os instrumentos de vigilância do desenvolvimento, as tabelas de vacinas aplicadas conforme o calendário. Essa parte é preenchida a cada contato com o serviço de saúde.

Essa arquitetura tem uma lógica: a caderneta foi pensada para ser autoexplicativa para a família, sem depender de quem tem formação em saúde para entender o essencial. Quando você folheia a primeira parte, encontra praticamente um manual dos primeiros anos.

O que os pais devem registrar na caderneta

Muita mãe me pergunta: “Doutora, mas eu escrevo alguma coisa ali, ou só o médico?”. Você escreve, sim — e o seu registro é valioso.

Anote as suas observações e as intercorrências entre as consultas. Um episódio de febre, uma reação depois de introduzir um alimento novo, um dente que começou a nascer, uma queda, uma alergia que apareceu. Na versão digital, o próprio Ministério da Saúde dá o exemplo de registrar que “um dentinho está para cair”. Essas anotações viram informação clínica na hora da consulta — muitas vezes o detalhe que você anotou no susto da madrugada é exatamente o que me ajuda a fechar um raciocínio.

Leve suas dúvidas por escrito. Uma prática que recomendo a todas as famílias: nos dias entre uma consulta e outra, anote na caderneta (ou numa página junto dela) as perguntas que vão surgindo. É raríssimo a gente lembrar, no consultório, de todas as dúvidas que teve em casa. A caderneta anotada resolve isso.

Confira o que foi registrado. Ao final de cada consulta ou vacinação, é seu direito pedir que o profissional anote e mostre os dados. Confira se o peso, a altura e a vacina do dia entraram. Caderneta em branco depois de uma consulta é uma oportunidade perdida.

Mãe brasileira anotando dúvidas na caderneta da criança antes da consulta de puericultura.
Anotar as dúvidas entre as consultas é o truque simples que faz você não esquecer nada na hora do pediatra.

O que o pediatra registra: curvas, vacinas e marcos

A parte técnica da caderneta concentra três grupos de informação que valem ouro no acompanhamento — e que eu preencho e explico em toda consulta de puericultura.

As curvas (ou gráficos) de crescimento. São os gráficos onde marcamos peso, comprimento/altura e perímetro cefálico ao longo do tempo. Eles usam as curvas de referência da OMS e mostram em que percentil a criança está. O ponto que quase ninguém entende de primeira e que eu faço questão de esclarecer: o que importa não é o número do percentil isolado, e sim a trajetória. Uma criança consistentemente no percentil 15, crescendo em ritmo estável e saudável, está muito melhor do que uma que despencou do 75 para o 25 em poucos meses. A curva conta uma história; um ponto solto, não.

O registro de vacinas. É a tabela onde cada dose aplicada é anotada com data e lote, seguindo o calendário nacional. Esse é o registro que a creche, a escola e as campanhas vão pedir. Manter essa página atualizada e legível evita revacinação desnecessária e correria de última hora.

A vigilância do desenvolvimento. A caderneta traz os marcos esperados por faixa etária (sustentar a cabeça, sentar, os primeiros sons, os primeiros passos) e instrumentos de rastreio, incluindo o M-CHAT, usado para triagem de sinais de transtorno do espectro autista. Aqui a caderneta vira uma ferramenta de detecção precoce: quando um marco não aparece na janela esperada, isso acende um sinal para investigar mais cedo — e, no desenvolvimento infantil, tempo é tudo.

Caderneta digital: como funciona a versão no Meu SUS Digital

Desde 2025, além da caderneta de papel, existe a Caderneta Digital de Saúde da Criança, disponível no aplicativo Meu SUS Digital. Ela é a versão eletrônica do documento tradicional e integra, num só lugar, o histórico de vacinação, os gráficos de crescimento, o calendário vacinal e conteúdos educativos.

Para usar, você acessa o app Meu SUS Digital, procura o miniapp “Caderneta da Criança”, adiciona a criança e vincula o perfil dela ao seu — é preciso informar o CPF da criança e alguns dados de confirmação. Tanto o responsável quanto a criança precisam de conta ativa no Gov.br.

A grande vantagem prática, na minha visão, é o fim do “esqueci a caderneta em casa”: os dados ficam na palma da mão e podem ser mostrados em qualquer atendimento. O app ainda envia lembretes e alertas de vacinação, avisando quando chega a hora de uma dose ou de um reforço. Mas atenção a um ponto importante: a versão digital não elimina a de papel. A caderneta física continua sendo distribuída nas unidades de saúde, e o ideal, por enquanto, é manter as duas atualizadas — a digital pela praticidade, a de papel como garantia.

Perguntas frequentes sobre a caderneta da criança

Para que serve a caderneta da criança? A caderneta serve para acompanhar a saúde, o crescimento e o desenvolvimento da criança do nascimento até os 9 anos, reunindo num só documento os registros de peso, altura, vacinas e marcos, além de orientações para a família. É considerada o “passaporte da cidadania” porque garante o direito da criança ao acompanhamento nos serviços de saúde, educação e assistência social.

Quem preenche a caderneta da criança? As duas partes têm donos diferentes. A primeira parte (orientações, observações e dúvidas) é da família; a segunda parte (curvas de crescimento, vacinas e marcos do desenvolvimento) é preenchida pelos profissionais de saúde a cada consulta ou vacinação. Solicitar que o profissional preencha é um direito do seu filho.

Preciso levar a caderneta em toda consulta? Sim. A regra é levar a caderneta em toda consulta, vacinação e atendimento de saúde — inclusive em viagens e no pronto-socorro. Sem ela, o profissional não vê a trajetória de crescimento e o histórico de vacinas, e o acompanhamento perde qualidade.

O que eu, mãe ou pai, devo anotar na caderneta? Anote intercorrências entre as consultas (febre, quedas, reações a alimentos, dentes nascendo), observações do dia a dia e as dúvidas que quer levar ao pediatra. Esses registros ajudam o médico a ter o quadro completo na hora do atendimento.

Como sei se meu filho está crescendo bem pela curva? O mais importante na curva de crescimento não é o percentil isolado, e sim a trajetória ao longo do tempo. Uma criança que cresce de forma estável na sua própria curva está bem, mesmo em percentis mais baixos. Quedas ou saltos bruscos entre percentis é que merecem avaliação do pediatra.

Perdi a caderneta do meu filho, e agora? Procure a Unidade Básica de Saúde para obter uma nova caderneta; ela é entregue gratuitamente. Leve os comprovantes de vacinação que você tiver guardado para que o histórico seja transcrito. A versão digital no Meu SUS Digital também ajuda a recuperar parte dos registros de vacinação.

A caderneta digital substitui a de papel? Não. A Caderneta Digital de Saúde da Criança, no app Meu SUS Digital, convive com a de papel. A física continua sendo distribuída e recomendada; a digital adiciona praticidade e lembretes de vacina. O ideal é manter as duas atualizadas.

Existe caderneta diferente para menino e menina? Sim. Há uma versão para meninos e outra para meninas, com pequenas diferenças, principalmente nas curvas de crescimento, que seguem referências específicas por sexo.

Até que idade a caderneta é usada? A caderneta acompanha a criança do nascimento até os 9 anos de idade, cobrindo toda a fase de acompanhamento do crescimento e do desenvolvimento infantil.

Quando buscar avaliação com o pediatra

A caderneta é uma ferramenta de acompanhamento, não substitui a consulta. Procure o pediatra quando notar, ao usá-la:

  • Um marco do desenvolvimento que não apareceu dentro da janela esperada (por exemplo, o bebê que não sustenta a cabeça, não senta ou não emite sons nas idades indicadas).
  • Uma mudança brusca na curva de crescimento — queda ou salto de percentil entre uma consulta e outra.
  • Doses de vacina em atraso no calendário.
  • Qualquer sinal de alerta listado na própria caderneta que você identifique no seu filho.

E, independentemente da caderneta, mantenha as consultas de rotina de puericultura em dia. É nelas que a caderneta é preenchida, lida e interpretada — o caderno sozinho não cuida; ele potencializa o cuidado de quem acompanha o seu filho de perto.

Se você está montando essa rotina de acompanhamento agora, vale entender o que é a puericultura e por que seu filho precisa dela.

Espero que este guia tenha deixado a caderneta menos misteriosa e mais útil no seu dia a dia. Ela é simples, gratuita e poderosa — use sem medo. Um grande abraço, e conte com o seu pediatra de confiança para interpretar junto com você o que esse caderninho tem a dizer.

Referências

  • Ministério da Saúde. Caderneta da Criança: Passaporte da Cidadania (versões menino e menina). Brasília: MS.
  • Ministério da Saúde. Caderneta Digital de Saúde da Criança — Meu SUS Digital (2025).
  • Organização Mundial da Saúde (OMS). Curvas de crescimento infantil (referência utilizada na caderneta).
  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Orientações sobre acompanhamento do crescimento e desenvolvimento e vigilância do desenvolvimento (M-CHAT-R/F).
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Dra Jéssica Dantas

Dra. Jéssica Dantas é médica pediatra e gastropediatra (CRM 185.972 | RQE 1239901). Com formação e preceptoria pela UNIFESP/EPM, dedica-se ao cuidado integral da criança — do recém-nascido ao adolescente — com atenção especial à saúde digestiva e à introdução alimentar. Acredita que toda criança merece um pediatra para chamar de seu e traduz a ciência mais atual em orientações práticas para o dia a dia das famílias. Atende em Vila Mariana, São Paulo.

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