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Cólica do recém-nascido: por que acontece nas primeiras semanas

Recém-nascido chorando de cólica no colo da mãe nas primeiras semanas de vida.

Resumo rápido:

  • A cólica do recém-nascido acontece principalmente pela imaturidade do sistema digestivo e nervoso do bebê, que ainda está se adaptando à vida fora do útero — não é culpa da mãe nem do seu leite.
  • Costuma começar entre a 2ª e a 3ª semana de vida, ter pico por volta de 6 semanas e desaparecer sozinha por volta dos 3–4 meses.
  • As explicações mais aceitas hoje são: imaturidade gastrointestinal, formação ainda incompleta da microbiota (flora intestinal), excesso de gases e um sistema nervoso que ainda regula mal os estímulos.
  • Cólica é um evento fisiológico, benigno e passageiro: não deixa sequelas e não atrapalha o desenvolvimento.
  • Alguns sinais (febre, vômitos, sangue nas fezes, baixo ganho de peso) não são cólica e pedem avaliação do pediatra.

A cólica do recém-nascido acontece porque o corpo do bebê ainda está imaturo e em plena adaptação à vida fora da barriga: o intestino aprende a digerir o leite, a flora intestinal ainda está se formando e o sistema nervoso ainda regula mal os estímulos do mundo. Some a isso a produção de gases dessa fase, e você tem o cenário perfeito para aquele choro que parece não ter explicação. É desconfortável de assistir, eu sei — mas, na imensa maioria das vezes, é sinal de um bebê saudável fazendo o que todo bebê nessa idade faz.

Se você chegou até aqui às três da manhã, com o pequeno chorando no colo e aquela sensação de que está fazendo algo errado, respira: você não está. Neste texto eu explico por que a cólica aparece justamente nas primeiras semanas — a causa por trás do choro. Se o que você procura são as técnicas de alívio (o que fazer na hora da crise), tenho um guia dedicado só a isso, que linko ao longo do caminho.

O que é a cólica do recém-nascido (e o que ela não é)

A cólica do recém-nascido é definida por episódios de choro intenso, inconsolável e sem causa aparente, em um bebê saudável e que ganha peso normalmente. O nome técnico mais atual (Roma V) é Sindrome do Desconforto do Lactente, e ela entra no grupo dos chamados Distúrbios do eixo cérebro-intestino — situações que acontecem por imaturidade do aparelho gastrointestinal e neurológico, sem nenhuma doença mecânica, infecciosa ou inflamatória por trás.

Por mais de 50 anos usou-se a “regra dos 3”, proposta por Wessel: choro por mais de 3 horas por dia, em pelo menos 3 dias na semana, por mais de 3 semanas. Hoje os Critérios de Roma V descrevem a cólica de forma parecida, sempre com um detalhe que me parece o mais importante de todos: é um choro que ocorre sem causa aparente e que os pais não conseguem prevenir nem resolver — e isso não é falha de vocês. É a natureza do quadro.

Um ponto que tranquiliza: a cólica é autolimitada (tem começo e fim), benigna e não deixa sequelas. Ela não faz mal ao desenvolvimento do bebê a curto ou longo prazo. Ou seja, por pior que seja a noite, ela passa — e passa sem cobrar nada do pequeno lá na frente.

Por que a cólica aparece justamente nas primeiras semanas

A cólica aparece nas primeiras semanas porque é exatamente o período em que o bebê está terminando de “estrear” o próprio corpo do lado de fora. Nada nele está pronto: o intestino acabou de dobrar de tamanho, as bactérias que ajudam na digestão ainda estão chegando, e o sisteminha que regula choro, sono e desconforto ainda opera no modo rascunho. As primeiras semanas concentram a cólica porque concentram a imaturidade.

Não existe uma causa única e comprovada — e desconfie de quem afirmar que existe. O que a ciência tem hoje é um conjunto de explicações que provavelmente atuam juntas, em proporções diferentes de bebê para bebê. Vou destrinchar as principais a seguir.

Imaturidade do sistema digestivo

O trato gastrointestinal do recém-nascido é um órgão em obras. Pouco antes de nascer, o intestino mede cerca de 100 cm; nas primeiras semanas de vida ele praticamente dobra de tamanho, chegando a uns 200 cm, com aumento da superfície de absorção. Todo esse crescimento acelerado, somado a uma motilidade (o movimento do intestino) ainda descoordenada, favorece desconforto, gases e o choro que chamamos de cólica.

Nessa mesma fase, é comum o bebê ter uma deficiência transitória e fisiológica de lactase — a enzima que quebra a lactose, o açúcar do leite. O leite materno é, entre todos os mamíferos, o mais rico em lactose, justamente para alimentar a flora intestinal que está se formando. Quando essa microbiota ainda não está madura, sobra lactose para fermentar, e a fermentação produz mais gases. Vale sublinhar: isso é transitório e normal, não é “intolerância à lactose” e quase nunca precisa de qualquer tratamento específico.

A flora intestinal (microbiota) ainda em formação

A microbiota intestinal — o conjunto de bactérias que vivem no intestino e ajudam na digestão — só se forma ao longo dos primeiros meses. Estudos observam que muitos bebês com cólica têm, nas primeiras semanas, uma microbiota com menos bactérias protetoras (como Bifidobacterium e lactobacilos) e mais fermentação, o que pode gerar gases e um certo grau de inflamação intestinal.

Como essa flora se instala depende de fatores como o tipo de parto e o tipo de alimentação. Bebês que nascem de parto normal recebem parte das bactérias da mãe na passagem pelo canal vaginal; prematuros e bebês nascidos de cesárea tendem a começar com uma flora mais imatura e menos diversa — o que ajuda a explicar por que alguns sofrem mais nessa fase. Nada disso é regra fechada, mas mostra por que a cólica varia tanto de um bebê para o outro.

Diagrama das causas da cólica do recém-nascido: imaturidade intestinal, microbiota, gases e sistema nervoso.
Não há uma causa única: a cólica costuma nascer do encontro de vários fatores, todos ligados à imaturidade do bebê.

Excesso de gases e engolir ar

Os gases são consequência tanto da fermentação intestinal quanto do ar que o bebê engole ao mamar ou ao chorar. Uma coordenação ainda imperfeita entre sugar, respirar e engolir faz o pequeno engolir mais ar do que gostaria — a chamada aerofagia, que é a deglutição excessiva de ar. Esse ar acumulado distende a barriguinha e incomoda.

Aqui vale um cuidado importante, porque quase toda avó tem uma teoria: o gás costuma ser mais consequência do que causa raiz da cólica. Ele participa do desconforto, sim, mas trocar de fórmula por conta própria, cortar alimentos da sua dieta ou apostar em chás e “simeticonas milagrosas” raramente resolve — e alguns desses caminhos até fazem mal. Sobre chá, aliás, sou categórica: chá para cólica é mito, e o uso nos primeiros meses se associa a desmame precoce, anemia e diarreia. Comida (e bebida) de bebê nessa fase é leite, ponto.

Um sistema nervoso ainda imaturo

Talvez a peça menos falada e mais interessante: o sistema nervoso do recém-nascido ainda é imaturo e tem dificuldade de filtrar e organizar os estímulos do ambiente. Depois de nove meses num lugar quente, escuro, embalado e silencioso, o bebê é jogado num mundo de luzes, sons, texturas e temperaturas. O choro do fim da tarde pode ser, em parte, esse sistema nervoso “transbordando” ao fim de um dia de estímulos — uma disfunção neuro-humoral transitória, dizem os estudos, que também altera o padrão de sono.

Isso conversa muito com o conceito de exterogestação: a ideia de que o bebê humano nasce “cedo demais” e precisa de um quarto trimestre de aconchego para amadurecer. Entender a cólica por essa lente ajuda a tirar o peso das costas dos pais — muitas vezes o que o bebê pede não é remédio, é regulação: colo, contato, ambiente mais calmo.

Não é culpa da sua dieta (na maioria das vezes)

Deixa eu dizer isso com todas as letras, porque é a dúvida que mais machuca as mães no consultório: na maioria dos casos, a cólica não tem relação com o que você come. Não há consenso científico de que restringir alimentos da dieta materna reduza a cólica. Cortar leite, feijão, brócolis e uma lista interminável de alimentos costuma trazer mais culpa e carência nutricional do que alívio para o bebê.

A exceção fica por conta da alergia à proteína do leite de vaca (APLV) confirmada — e ela é bem mais rara do que a internet faz parecer, e tem sinais próprios (que vão além do choro, como sangue nas fezes, lesões de pele ou baixo ganho de peso). Mesmo nesses casos, a regra de ouro vale sempre: não faça restrições alimentares por conta própria. Qualquer exclusão na sua dieta precisa ser orientada por um profissional, para não trocar um problema (que talvez nem exista) por uma carência nutricional real em você e no seu leite.

O mesmo raciocínio serve para a insegurança que ronda toda mãe de primeira viagem: cólica não é sinal de que você está fazendo algo errado, de que seu leite é “fraco” ou de que faltou colo. É biologia do amadurecimento — e ela seguiria seu curso com qualquer mãe.

Quando começa e quando passa

A cólica costuma começar entre a 2ª e a 3ª semana de vida, atingir o pico por volta das 6 semanas e ir cedendo até desaparecer sozinha por volta dos 3 a 4 meses. Não existe uma régua exata: em alguns bebês o pico chega mais cedo, em outros só lá pela 6ª a 8ª semana. Uma marca característica é o horário — a cólica tende a aparecer no fim da tarde e à noite.

Por que ela passa? Porque a causa passa. Por volta dos 3–4 meses, a flora intestinal já amadureceu, a produção de enzimas se ajustou, o intestino ganhou coordenação e o sistema nervoso aprendeu a lidar melhor com os estímulos. O corpo alcança o mundo — e o choro sem explicação vai embora com a mesma discrição com que chegou.

É importante deixar claro aqui que não existem números fixos para esse começo e fim. Por consenso, esse período de maior desconforto do bebê não pode começar após os 5 meses, mas pode ultrapassar esse número em alguns bebês mais sensíveis. Portanto, não fique frustrada e preocupada caso seu bebê tenha 3 meses e a cólica ainda não passou. É provável que ele esteja nesse ritmo mais lento de desenvolvimento – ainda normal.

Linha do tempo da cólica do recém-nascido, do início na 2ª semana ao fim por volta dos 3 meses.
A cólica tem hora para chegar e, felizmente, hora para ir embora.

Como saber se é cólica mesmo (e não outra coisa)

O choro do recém-nascido é a única linguagem que ele tem, e nem todo choro é cólica. Fome, fralda suja, frio, calor, sono e simples vontade de colo também fazem o bebê chorar — e esses costumam ceder quando você atende à necessidade. O choro típico da cólica é diferente: intenso, agudo, que parece não ter motivo, no qual nada consola totalmente, geralmente no fim do dia, muitas vezes com o bebê fechando as mãozinhas, ficando com o rostinho ruborizado e as perninhas encolhidas.

Ainda assim, algumas situações não são cólica e merecem a avaliação de um pediatra de confiança. Se junto ao choro aparecerem sinais de alarme — que listo na seção abaixo —, aí não é caso de “esperar passar”: é caso de examinar o bebê. Refluxo, alergia alimentar e outras condições podem, em uma minoria de casos, se esconder atrás de um choro que parece cólica. É por isso que ter um pediatra acompanhando de perto faz tanta diferença.

Perguntas frequentes sobre cólica do recém-nascido

Por que meu recém-nascido tem cólica? Principalmente por imaturidade: o sistema digestivo e o sistema nervoso do bebê ainda estão se adaptando à vida fora do útero. Some a formação incompleta da flora intestinal e o excesso de gases dessa fase, e surge o choro que chamamos de cólica. Não há uma causa única comprovada — é um conjunto de fatores atuando junto.

Com quantas semanas começa a cólica? Costuma começar entre a 2ª e a 3ª semana de vida, com pico por volta das 6 semanas. Não há regra fixa: em alguns bebês o início se dá só entre a 6ª e a 8ª semana.

Quando a cólica do bebê vai passar? Na maioria dos bebês, por volta dos 3 a 4 meses, podendo se estender até o quinto mês — quando o intestino, a microbiota e o sistema nervoso amadurecem. Ela é autolimitada: vai embora sozinha.

A cólica é causada pelo que eu como na amamentação? Na maioria das vezes, não. Não há consenso de que restringir alimentos da dieta materna reduza a cólica. A exceção é a APLV confirmada — e mesmo aí, qualquer restrição deve ser orientada por um profissional, nunca por conta própria.

A cólica faz mal para o bebê? Não. A cólica é um evento fisiológico, benigno e passageiro. Não deixa sequelas e não interfere no desenvolvimento do bebê, por pior que sejam as crises.

Bebê prematuro tem mais cólica? Pode sofrer mais nessa fase, porque nasce com a flora intestinal mais imatura e menos diversa. Bebês de cesárea também tendem a começar com uma microbiota menos colonizada. Não é regra, mas ajuda a explicar por que alguns bebês têm mais desconforto.

Chá ajuda na cólica? Não. Chá para cólica é mito. Nos primeiros meses, o uso de chás se associa a desmame precoce, anemia e diarreia. O alimento do bebê nessa fase é leite.

Gases causam a cólica? Os gases participam do desconforto, mas costumam ser mais consequência do que causa raiz. Eles vêm da fermentação intestinal e do ar engolido ao mamar ou chorar. Trocar fórmula ou dieta por conta própria para “resolver o gás” raramente ajuda.

É normal a cólica vir sempre no fim da tarde? Sim, é um padrão clássico. A cólica tende a se manifestar no fim da tarde e à noite, possivelmente pelo acúmulo de estímulos do dia sobre um sistema nervoso ainda imaturo.

Quando buscar avaliação com o pediatra

A cólica típica não precisa de exames nem de corrida ao pronto-socorro — precisa de acolhimento e tempo. Mas alguns sinais não combinam com cólica simples e pedem avaliação médica. Procure o pediatra se, junto ao choro, você notar:

  • Febre;
  • Vômitos (principalmente se forem intensos, em jato ou esverdeados);
  • Sangue nas fezes ou no vômito;
  • Baixo ganho de peso ou recusa persistente das mamadas;
  • Barriga muito distendida e tensa;
  • Sonolência excessiva ou bebê “molinho”, difícil de despertar;
  • Choro que muda de padrão, fica ainda mais intenso ou não segue a evolução esperada (inicia ou piora depois dos 5 meses, em vez de melhorar).

Nenhum desses sinais é para gerar pânico — são apenas o convite a deixar um profissional olhar de perto. Toda criança merece um pediatra para chamar de seu, e é no acompanhamento de rotina, na puericultura, que a gente diferencia com segurança o que é cólica fisiológica do que merece investigação.

Se o que você quer agora são as técnicas de alívio para atravessar as crises — colo, posições, massagem, ambiente calmo e o que a evidência diz sobre probióticos —, reuni tudo isso no guia sobre o que fazer na cólica do bebê. E se o choro do seu recém-nascido te deixa em dúvida entre cólica e refluxo, este outro texto ajuda a reconhecer os sintomas de refluxo no bebê e quando procurar o gastropediatra. Para o quadro completo dos sinais de urgência em bebês, vale conhecer o guia de urgências pediátricas em bebês e crianças.

Espero que este texto tenha tirado um pouco do peso das suas costas. Cólica assusta, cansa e tira o sono — mas quase sempre é a história de um bebê perfeitamente saudável terminando de chegar ao mundo. Um grande abraço, e força nessas primeiras semanas.

Referências

  • Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) — Distúrbios gastrointestinais funcionais do lactente.
  • Critérios de Roma IV — Distúrbios funcionais gastrointestinais na infância (2016).
  • Wessel MA et al. — Definição clássica da cólica do lactente (“regra dos 3”).
  • ESPGHAN / NASPGHAN — Orientações sobre cólica e distúrbios funcionais do lactente.
  • Camilleri M et al. — Revisão sobre mecanismos da cólica do lactente (imaturidade entero-hepática e microbiota).
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Dra Jéssica Dantas

Dra. Jéssica Dantas é médica pediatra e gastropediatra (CRM 185.972 | RQE 1239901). Com formação e preceptoria pela UNIFESP/EPM, dedica-se ao cuidado integral da criança — do recém-nascido ao adolescente — com atenção especial à saúde digestiva e à introdução alimentar. Acredita que toda criança merece um pediatra para chamar de seu e traduz a ciência mais atual em orientações práticas para o dia a dia das famílias. Atende em Vila Mariana, São Paulo.

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