Os sintomas de TDAH em crianças se agrupam em desatenção, hiperatividade e impulsividade, e o que os separa da agitação esperada é a persistência, o prejuízo e a presença em mais de um ambiente. Se você está preocupada, respire: até os 3 anos, agitação e birra fazem parte do desenvolvimento, e a avaliação formal de TDAH é orientada pela AAP (2019) a partir dos 4 anos.
Resumo rápido:
- Os sintomas de TDAH são desatenção, hiperatividade e impulsividade, persistentes, em mais de um ambiente e com prejuízo.
- Agitação, atenção curta e birra são esperadas até os 3 anos e, sozinhas, não indicam TDAH.
- A avaliação formal de TDAH é orientada a partir dos 4 anos (AAP, 2019).
- O diagnóstico de TDAH é clínico: não existe exame de sangue ou de imagem que o confirme.
- Antes dos 4 anos, anote o que observa e converse com o pediatra, sem rótulo.
O que é TDAH e quais são os sintomas
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, do modo como o cérebro se desenvolve, com desatenção, hiperatividade e impulsividade acima do esperado para a idade e que atrapalham a vida da criança. O DSM-5-TR (APA, 2022), manual de diagnóstico da psiquiatria, descreve três apresentações: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa e impulsiva, e combinada.
- Desatenção: perde o foco com facilidade, não termina o que começa, parece não ouvir quando chamam.
- Hiperatividade: mexe-se o tempo todo, tem dificuldade de ficar parada quando se espera isso.
- Impulsividade: age sem pensar, interrompe, tem dificuldade para esperar a vez.
Segundo o DSM-5-TR (APA, 2022), os sintomas costumam aparecer antes dos 12 anos. Nos Estados Unidos, o CDC (2024) estima que 11,7% das crianças de 3 a 17 anos tenham diagnóstico atual de TDAH, em pesquisa nacional com pais.
Agitação normal da idade ou sinal de alerta?

Até os 3 anos, correr, mexer em tudo, ter atenção curta e fazer birras intensas é comportamento esperado, e não sinal de TDAH. O que merece observação é o conjunto: comportamento muito mais intenso e persistente do que o das outras crianças da mesma idade, em casa e fora de casa, com prejuízo para o brincar, o sono ou a convivência.
- Esperado na idade: atenção curta, correria, birra, dizer “não”, dificuldade de esperar.
- Para observar e levar ao pediatra: sinais que persistem por meses, que aparecem em vários ambientes, que fazem seu filho se machucar com frequência por impulsividade, que o impedem de brincar com outras crianças ou que prejudicam o sono.
No consultório, a pergunta que mais escuto é “será que é só uma fase?”, e muitas vezes é: observar com calma, sem pressa de rotular, é o primeiro passo.
Com que idade se diagnostica o TDAH
A avaliação formal de TDAH é recomendada a partir dos 4 anos pela diretriz da AAP (2019), que não trata de crianças menores. Por isso, uma criança de 2 ou 3 anos agitada é acompanhada, e as causas possíveis são investigadas, antes de qualquer diagnóstico.
O DSM-5-TR (APA, 2022) diz como se diagnostica: sintomas por pelo menos 6 meses, em dois ou mais ambientes, com prejuízo. Esses critérios não fixam idade mínima; a recomendação de começar aos 4 anos vem da AAP. O trecho central da diretriz é este:
“The pediatrician or other PCC should initiate an evaluation for ADHD for any child or adolescent age 4 years to the 18th birthday.” (AAP, 2019), na redação original.
Em tradução livre: o médico de atenção primária, como o pediatra, deve iniciar a avaliação de TDAH de crianças e adolescentes dos 4 anos até a véspera dos 18.
TDAH, autismo, atraso de fala, audição e telas
Autismo, problemas de audição, atraso de fala, sono ruim e excesso de tela podem imitar ou acompanhar o TDAH, e por isso o pediatra descarta essas causas antes de pensar em TDAH. A diferença entre TDAH e autismo está em onde fica a dificuldade: no TDAH, na atenção, na agitação e no controle dos impulsos; no autismo, na comunicação e na interação social, com comportamentos repetitivos (DSM-5-TR, APA, 2022). Os dois podem coexistir; veja autismo: sinais precoces que todo pai e mãe deve conhecer.
Uma criança que parece não ouvir quando chamam pode ter um problema de audição, e uma que fala pouco pode ter atraso de linguagem (veja quando o bebê começa a falar e os atrasos de fala). Sono ruim e excesso de tela também deixam a criança desatenta e agitada, e o conteúdo sobre tempo de tela por faixa etária mostra o que é adequado em cada idade.
Quem diagnostica e como é a avaliação

O diagnóstico de TDAH é clínico: não existe exame de sangue, de imagem ou teste que o confirme sozinho. O pediatra é a primeira porta de entrada e, se necessário, encaminha para neuropediatra, psiquiatra infantil ou psicólogo.
- Conversa detalhada com a família sobre o desenvolvimento, o sono e o comportamento.
- Informações da escola ou da creche e questionários de comportamento, porque os sintomas precisam aparecer em mais de um ambiente.
- Exame da criança e investigação de outras causas, como audição e sono.
- Encaminhamento ao especialista, se houver dúvida ou necessidade.
No consultório, costumo pedir que a família anote por uma semana quando o comportamento aparece, onde e por quanto tempo, e que traga o relato da creche ou da escola: isso muda o rumo da consulta mais do que qualquer teste.
O que fazer enquanto você observa a suspeita de TDAH
Enquanto a suspeita de TDAH é só uma dúvida, o mais útil é anotar o que você observa: o quê, quando, onde e por quanto tempo. Mantenha rotina e sono regulares, brincadeiras ativas e tela adequada à idade, e acompanhe o desenvolvimento pelos marcos do desenvolvimento infantil. Se seu filho já tem 4 anos ou mais e a suspeita persiste, o pediatra pode iniciar a avaliação formal.
Perguntas frequentes sobre TDAH em crianças
Dá para diagnosticar TDAH aos 2 ou 3 anos?
A diretriz da Academia Americana de Pediatria (AAP, 2019) recomenda iniciar a avaliação de TDAH a partir dos 4 anos e não trata de crianças menores. Aos 2 ou 3 anos, agitação e atenção curta fazem parte do desenvolvimento, e a conduta habitual é observar, acompanhar e investigar outras causas antes de pensar em diagnóstico.
TDAH tem cura?
O TDAH costuma acompanhar a pessoa ao longo da vida, e o que se faz é manejar os sintomas para que a criança funcione bem em casa, na escola e com os amigos.
Qual a diferença entre TDAH e autismo?
O TDAH afeta a atenção, a atividade e o controle dos impulsos, e o autismo afeta a comunicação e a interação social, com comportamentos repetitivos ou interesses restritos (DSM-5-TR, APA, 2022). Os dois podem existir na mesma criança, e quem distingue é a avaliação clínica.
Como funciona a avaliação de TDAH?
A avaliação de TDAH reúne conversa com a família, relato da escola ou da creche, questionários de comportamento preenchidos por pais e professores e o exame da criança. Não existe exame de sangue ou de imagem que confirme o TDAH.
TDAH é falta de limite ou culpa dos pais?
Não. O TDAH não é culpa de ninguém nem consequência de má educação. Os pais podem aprender estratégias de manejo do comportamento, que fazem parte do tratamento.
TDAH é hereditário?
Há um componente familiar importante: o TDAH é mais comum em famílias em que alguém já tem o diagnóstico. Isso não significa que o seu filho terá: só a avaliação individualizada responde.
Telas causam TDAH?
Não há como afirmar que tela causa TDAH. O que se sabe é que o excesso de tela pode piorar a atenção e a agitação e imitar sintomas, e por isso reduzir é recomendável antes de qualquer conclusão.
Criança pequena com TDAH precisa de medicamento?
A decisão é sempre do médico. Para crianças em idade pré-escolar, a diretriz da AAP (2019) coloca o treinamento dos pais em manejo do comportamento como primeira escolha, antes de qualquer medicação.
Quando buscar avaliação com o pediatra
Marque uma avaliação com o pediatra de confiança se:
- Você está preocupada com a atenção ou a agitação do seu filho, em qualquer idade.
- Os sinais persistem por meses e aparecem em casa e na creche ou escola.
- Seu filho se machuca com frequência, dorme mal ou tem dificuldade para brincar com outras crianças.
- Ele parece não ouvir ou tem atraso na fala.
Toda criança merece um pediatra para chamar de seu, que acompanhe cada fase com calma e sem rótulos precipitados. Conheça a Dra. Jéssica Dantas. Espero ter ajudado, e um grande abraço!
Referências
- Wolraich ML, et al. Clinical Practice Guideline for the Diagnosis, Evaluation, and Treatment of Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder in Children and Adolescents. American Academy of Pediatrics (AAP). Pediatrics, 2019;144(4):e20192528.
- American Psychiatric Association (APA). Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª edição, texto revisado (DSM-5-TR), 2022.
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Data on ADHD in Children, dados de 2024.